Geral
Empresas enfrentam apagão de profissionais qualificados e 80% relatam dificuldade para contratar no Brasil
Geral
Avanço tecnológico amplia procura por mão de obra especializada, enquanto indústria brasileira terá de qualificar milhões de trabalhadores até 2027 – Foto: Divulgação
O mercado de trabalho brasileiro vive uma contradição cada vez mais evidente: ao mesmo tempo em que empresas abrem oportunidades, encontrar trabalhadores preparados para determinadas funções se tornou um dos principais obstáculos para a contratação. Levantamentos recentes indicam que a falta de qualificação profissional já alcança diferentes setores da economia e pressiona especialmente atividades que dependem de conhecimento técnico e tecnológico.
De acordo com a Pesquisa de Escassez de Talentos 2026, realizada pelo ManpowerGroup, 80% dos empregadores brasileiros afirmam enfrentar dificuldades para contratar pessoas que tenham as competências exigidas pelas empresas. O percentual brasileiro supera a média mundial, que ficou em 72%. A situação é ainda mais intensa nos Serviços Profissionais, Científicos e Técnicos, onde o índice chega a 85%, enquanto a Manufatura registra 79%.
A necessidade de formação profissional também aparece nas projeções para o setor industrial. O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, produzido pelo Observatório Nacional da Indústria, estima que aproximadamente 14 milhões de trabalhadores precisarão passar por processos de qualificação ou atualização profissional no Brasil até 2027.
Desse contingente, cerca de 2,2 milhões deverão receber formação para ocupar novas vagas ou ingressar em atividades relacionadas à indústria. Outros 11,8 milhões já estão inseridos no mercado, mas terão de atualizar conhecimentos para acompanhar as mudanças nas funções, equipamentos e processos produtivos.
Mais do que simplesmente uma falta de pessoas disponíveis para trabalhar, os números revelam uma diferença entre aquilo que as empresas procuram e as habilidades apresentadas pelos candidatos. O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, apontou que 63% dos empregadores consideram as lacunas de qualificação o principal obstáculo para a transformação de seus negócios. Além disso, 70% das empresas pesquisadas indicaram intenção de contratar trabalhadores com novas competências.
Automação, inteligência artificial, análise de dados e digitalização das operações estão acelerando essa transformação. Na indústria, máquinas e sistemas mais sofisticados aumentam a produtividade, mas também exigem trabalhadores capazes de compreender, operar e integrar diferentes tecnologias ao ambiente produtivo.
A carreira de Sérgio da Silva Santos mostra como essa especialização passou a fazer diferença. Com quase 30 anos de atuação em Ensaios Não Destrutivos (END), principalmente em plataformas offshore do setor de petróleo e gás, ele trabalha na identificação de problemas como corrosões, trincas e falhas em soldas, tubulações, tanques, vasos de pressão e estruturas metálicas sem provocar danos aos equipamentos durante as inspeções.
Para acompanhar as exigências da atividade, Sérgio construiu uma formação multidisciplinar. Além dos cursos técnicos em Estrutura Naval e Mecânica, graduou-se em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, fez pós-graduação em Big Data e acumulou certificações especializadas, incluindo Ultrassom Nível II, Phased Array, TOFD, Eddy Current e Phased Array Composite.
O interesse pela área ganhou força quando conheceu as possibilidades do ultrassom industrial e percebeu que a tecnologia poderia localizar defeitos no interior de componentes metálicos. Em 2002, buscou no SENAI capacitações em Técnicas Não Destrutivas, Medição de Espessura e Ensaios por Ultrassom. Depois, passou a investir também no aprendizado de idiomas, incluindo inglês e espanhol, ampliando sua preparação para um mercado cada vez mais especializado.
A experiência profissional também demonstra uma mudança importante na relação entre formação e emprego. Em setores que passam por rápida evolução tecnológica, concluir um curso deixou de representar o fim da preparação profissional. Novas ferramentas, métodos e equipamentos obrigam trabalhadores experientes a retornar constantemente aos processos de capacitação.
Essa necessidade ajuda a explicar por que a maior parcela da demanda projetada para os próximos anos está justamente entre pessoas que já trabalham. Dos aproximadamente 14 milhões de profissionais que precisarão de qualificação até 2027, 11,8 milhões necessitarão atualizar ou desenvolver novas competências para permanecer preparados para as transformações do setor industrial.
As próprias empresas começaram a mudar de estratégia diante da dificuldade de encontrar profissionais prontos no mercado. A pesquisa do ManpowerGroup de 2026 aponta que 44% dos empregadores brasileiros consideram o aprimoramento e a requalificação dos atuais funcionários — conhecidos como upskilling e reskilling — a principal alternativa para enfrentar a escassez de talentos.
O chamado apagão de mão de obra qualificada, portanto, vai além da ausência de candidatos para determinadas vagas. O cenário revela uma corrida entre a velocidade das transformações tecnológicas e a capacidade de formação dos trabalhadores. Para empresas e profissionais, atualização constante e especialização passam a ocupar posição cada vez mais decisiva na disputa pelas oportunidades do mercado de trabalho.
Geral
MPF aciona Justiça para barrar programa de fiscalização nas praias do Rio e cobra plano de gestão para ambulantes
Órgão federal pede suspensão imediata do programa Tolerância Zero e defende políticas públicas – Foto: Rodrigo Soldon/ Creative Commons 2.0
O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública com pedido de tutela de urgência para suspender os efeitos do programa Tolerância Zero, implantado pela Prefeitura do Rio de Janeiro para intensificar a fiscalização do comércio ambulante nas praias do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon. Além da suspensão da medida, o órgão solicita que o município e a União desenvolvam, de forma conjunta e participativa, um plano de gestão que organize a ocupação desses espaços sem comprometer os direitos dos trabalhadores.
Na ação, o MPF sustenta que a prefeitura colocou o programa em prática sem observar normas federais que regulam a administração das praias marítimas, consideradas bens da União. Segundo o órgão, a iniciativa foi implementada sem diálogo institucional, sem participação popular e sem apresentar alternativas para regularizar a situação de milhares de ambulantes que dependem da atividade para garantir o sustento de suas famílias.
O procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto, Julio Araujo, argumenta que o município também deixou de cumprir etapas consideradas essenciais para esse tipo de intervenção, como a adesão ao Termo de Gestão de Praias (TAGP) e a elaboração do Plano de Gestão Integrada previsto pelo Projeto Orla. Para o MPF, esses instrumentos são fundamentais para assegurar que mudanças na ocupação das praias ocorram de maneira planejada e transparente.
Embora reconheça a necessidade de combater o crime organizado e a exploração irregular do espaço público, o Ministério Público afirma que essas ações não podem resultar em restrições generalizadas contra trabalhadores que exercem atividades legais. O órgão entende que políticas de segurança devem ser direcionadas aos responsáveis por práticas ilícitas, sem criminalizar toda uma categoria profissional.
A ação também questiona a ausência de programas de regularização para os vendedores ambulantes. De acordo com o MPF, a intensificação das apreensões de mercadorias e das fiscalizações atinge principalmente pessoas em situação de vulnerabilidade social, incluindo trabalhadores de baixa renda, migrantes e refugiados, que dependem exclusivamente do comércio informal para sobreviver.
O processo é resultado de uma atuação iniciada há vários anos pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão. Desde 2022, o órgão acompanha denúncias relacionadas a apreensões consideradas arbitrárias, dificuldades para obtenção de licenças, violência durante operações de fiscalização e falta de políticas públicas voltadas ao comércio ambulante.
Ao longo desse período, o MPF promoveu audiências públicas, expediu recomendações e buscou construir soluções junto a diferentes órgãos públicos. Entre as medidas sugeridas estavam a criação de protocolos para reduzir conflitos durante fiscalizações, o uso de câmeras corporais por agentes municipais, a regulamentação da chamada Lei dos Depósitos e a implantação de espaços destinados ao armazenamento de mercadorias dos ambulantes.
Em audiência pública realizada em 2025, mais de 150 trabalhadores relataram episódios de agressões, apreensões de produtos, burocracia para obtenção de autorizações e ausência de diálogo com o poder público. Segundo o MPF, esses relatos reforçaram a necessidade de adoção de políticas permanentes que promovam inclusão e formalização da categoria.
Dados apresentados na ação apontam que o Rio de Janeiro possui aproximadamente 35 mil trabalhadores atuando no comércio de rua, enquanto apenas uma parcela reduzida possui autorização oficial para exercer a atividade. Para o Ministério Público Federal, o cenário demonstra a necessidade de ampliar políticas de regularização, em vez de adotar medidas predominantemente repressivas.
Com a ação protocolada na Justiça Federal, o MPF busca garantir que futuras políticas para o comércio ambulante nas praias cariocas sejam construídas com planejamento, participação social e respeito aos direitos fundamentais, conciliando o ordenamento urbano, a segurança pública e a inclusão econômica dos trabalhadores.
-
Política Destaque5 dias atrásApós sobreviver a atentado a tiros, advogada Nadia Beller denuncia aliado dos Bolsonaro e revela supostos esquemas nos bastidores de Milei
-
Política Destaque6 dias atrásPresidente Lula diz que eleição colocará dois projetos de país frente a frente e alerta contra volta de quem “não gosta de pobre”
-
Região Nordeste6 dias atrásLucas Ribeiro repudia episódio envolvendo Ricardo Coutinho e determina rigor das forças de segurança na Paraíba
-
Região Sudeste6 dias atrásBenedita defende união com Lula e Eduardo Paes e pede força no Senado para novo projeto político no Rio de Janeiro



